Por Liliam Benzi* O varejo vive uma transformação silenciosa, porém profunda. Nas lojas físicas, nas…
Entre regulação e competitividade, o redesenho da cadeia de flexíveis
Por: Liliam Benzi*
A indústria de embalagens plásticas flexíveis já entendeu que não pode mais se orientar por escala e eficiência. É preciso abraçar um sistema complexo, regulado e altamente estratégico, deixando de lado a condição de commodity e incorporando atributos de governança, sustentabilidade e compliance.
Este novo pensar redefine o futuro da embalagem e amplia seu escopo: não é só sobre proteger, mas sobre se adaptar às regulações e demandas de brand owners e consumidores, num movimento de antecipação de tendências.
Não se trata de mais um ciclo econômico adverso ou de uma pressão pontual por sustentabilidade. O que está em curso é uma mudança estrutural onde regulações como a Responsabilidade Estendida ao Produtor (EPR), redefinem a lógica de desenvolvimento de embalagens.
Se, por décadas, o desempenho das embalagens foi guiado por custo, funcionalidade e eficiência logística, hoje esses atributos precisam coexistir com conformidade regulatória. Tomando como exemplo os EUA, vemos o avanço de programas estaduais de EPR que introduzem três mecanismos centrais:
- taxas para produtores, moduladas conforme a reciclabilidade e o impacto ambiental das embalagens;
- critérios técnicos de design que influenciam diretamente a escolha de materiais e estruturas;
- investimentos obrigatórios em infraestrutura de reciclagem, financiados pela indústria.
Assim, o design passa a ser uma decisão econômica-regulatória. Estruturas multimateriais mais complexas tendem a enfrentar penalizações financeiras, enquanto soluções monomaterial, ou com maior compatibilidade com sistemas de reciclagem, ganham vantagem competitiva.
Diferentemente da Europa, que avança sob uma lógica guiada pela PPWR (Packaging & Packaging Waste Regulation), os Estados Unidos operam em um modelo fragmentado onde cada estado estabelece suas próprias regras de EPR, com diferenças em:
- metodologias de cálculo de taxas;
- definições de reciclabilidade;
- metas de recuperação;
- modelos operacionais.
Este cenário cria o que os especialistas já chamam de “complexidade regulatória sistêmica”. Para empresas que atuam nacionalmente ou globalmente, os efeitos são:
- múltiplos padrões de design para um mesmo produto;
- aumento significativo de custos de compliance;
- necessidade de revisão constante de portfólio.
Isto afeta a estratégia e a eficiência operacional passa a depender da capacidade de navegar nessas regulações e não apenas de produzir o melhor. Outro agravante é que essa pressão regulatória ocorre num ambiente econômico instável.
O recente conflito no Oriente Médio evidenciou a vulnerabilidade da cadeia petroquímica e a valorização do petróleo, a alta da nafta e os impactos logísticos, geraram aumentos expressivos nos custos das resinas termoplásticas.
De um lado, a regulação pressiona por materiais mais sustentáveis e, muitas vezes, mais caros; do outro, o mercado enfrenta volatilidade e busca reduzir custos.
A pergunta é: como o Brasil enfrentará esses desafios? A resposta pode estar em análises criteriosas, decisões conscientes e pautadas por dados, e equilíbrio entre avanço técnico e realidade econômica.
A agenda de circularidade avança com um crescimento consistente no uso de resinas recicladas (PCR) e no desenvolvimento de soluções monomaterial. Mas precisamos driblar o paradoxo: queda do preço da resina virgem X perda de competitividade da resina PCR (reciclada pós-consumo).
Um fenômeno que pressiona recicladores, reduz margens e evidencia que a transição para uma economia circular não depende apenas de tecnologia, mas de equilíbrio econômico e incentivos regulatórios bem calibrados. Não podemos simplesmente nos adaptar a regulações internacionais; é preciso uma avaliação clara e precisa dos recursos e condições locais.
Sabemos que o centro das decisões mudou e que a escolha de materiais deve considerar questões regulatórias, econômicas e estratégicas; assim como a complexidade é um custo estrutural e gerenciar múltiplos mercados e regulações é parte do core business.
A inovação surge como forte aliada nessa equação e as empresas que não avançarem em design para reciclagem, uso de PCR e novas soluções materiais devem perder competitividade. Assim como quem não considerar dados e inteligência de mercado como ativos críticos, e continuar baseando suas decisões em percepção, correrá mais riscos.
A indústria de embalagens plásticas flexíveis vive uma fase onde estratégia e sobrevivência são praticamente sinônimo. Não há mais espaço para decisões baseadas exclusivamente em histórico ou intuição: a nova lógica exige leitura contínua de cenários globais, domínio regulatório e capacidade de adaptação em tempo real.
O setor precisará abraçar seu protagonismo, influenciando agendas, investindo em inovação viável e construindo modelos que equilibrem competitividade e sustentabilidade. Não será a empresa mais eficiente que liderará o mercado, mas a que operar com inteligência num ambiente onde custo, regulação e reputação caminham juntos.
*Liliam Benzi é Assessora de Comunicação da ABIEF (LDBCOM@UOL.COM.BR).

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